22 de julho de 2017

Crítica: Dunkirk

Realizador: Christopher Nolan
Argumento: Christopher Nolan
Elenco: Fionn Whitehead, Tom Hardy, Mark Rylance, Harry Styles, Cillian Murphy, Aneurin Barnard, Jack Lowden, Kenneth Branagh 
Classificação IMDb: 8.9 | Metascore: 94 | RottenTomatoes: 92%
Classificação Barba Por Fazer: 84


    Podemos começar assim: se só tiverem oportunidade de ir ver um filme ao cinema até ao final de 2017, Dunkirk é a melhor escolha que podem fazer (embora Blade Runner 2049 também "exija" claramente ser visto num grande ecrã). O novo filme de Christopher Nolan - que não é o melhor do visionário realizador, mas é o melhor da Sétima Arte desde os últimos óscares, uma pole position que não acreditamos que mantenha quando chegarmos a Março de 2018 - é uma experiência imersiva e uma obra audiovisual monumental e poderosa. Trata-se de um daqueles casos em que a diferença entre vê-lo numa sala de cinema (convençam as vossas carteiras, tem mesmo que ser em IMAX) ou noutra plataforma minimalista é simplesmente abismal.

    Contexto: em plena Segunda Guerra Mundial, os soldados ingleses ficam encurralados na praia de Dunkirk, à medida que o inimigo se aproxima. A operação Dínamo, na sequência de uma gigante derrota militar, é pois um quase-milagre e uma tremenda vitória humana. Para relatar o desespero de 400 mil homens e a coragem de muitos civis e soldados, Christopher Nolan dividiu a acção em três segmentos interligados. Em terra, e num período com duração de uma semana, Tommy (Fionn Whitehead) multiplica-se em esforços para sobreviver e escapar do núcelo de pânico, num palco vulnerável e caótico. Ao lado de Alex (Harry Styles) e Gibson (Aneurin Barnard) o segmento terrestre de Tommy é uma jornada de tentativa e erro, de juventude à deriva. No mar, num período com a duração de 1 dia, o civil Mr. Dawson (Mark Rylance) parte de barco com o seu filho e um amigo deste com o intuito de resgatar o máximo de soldados presos no terror. Finalmente, no ar e com a duração de uma hora, um trio de pilotos de spitfires, entre os quais Farrier (Tom Hardy), voa em auxílio das forças aliadas, atentos aos luftwaffes inimigos e numa corrida contra o tempo com o combustível a escassear.
    As três dimensões (terra, mar e ar, com durações de uma semana, um dia e uma hora respectivamente) são contadas ao mesmo tempo - sim, Nolan não consegue não brincar com o tempo e com a linearidade narativa - e interligam-se a certo ponto.
    Não é exagerado dizer que Dunkirk é um terceiro Acto que se prolonga, tornando-se todo o filme. Também por isso Nolan o considera o seu filme mais experimental desde Memento. Desde o primeiro minuto, é uma experiência enervante, carregada de adrenalina e que praticamente não abranda em termos rítimicos, e tudo contribui para nos fazer estar lá, lado a lado com os soldados, contagiados pela ansiedade, pela intensidade visceral, asfixiados e mergulhados no caos. É habitual os filmes do realizador de Inception, Interstellar e The Dark Knight serem concebidos com uma precisão e ousadia que desafia o nosso cérebro, e por vezes criticados por não conseguirem apontar ao coração (ou emoção), mas desta vez o grande alvo são mesmo os nossos nervos, procurando uma submersão que faça o espectador reagir e percepcionar tudo quase irracional e involuntariamente.

    Pontuado pelo tiquetaque do relógio de bolso de Nolan (Zimmer já teve bandas sonoras mais fortes ou com composições mais memoráveis, mas volta a produzir o efeito pretendido) e recuperando uma certa obsessão do realizador com a água (embora neste caso apoiado pela História), Dunkirk é tudo menos um filme de guerra tradicional. Nolan, aliás, descreve-o como um thriller carregado de suspense, e é na verdade um filme de sobrevivência. Foge a parâmetros clássicos no género como a extensa duração para nos fazer mergulhar na realidade, com ritmos diferentes, ou a presença de cenas sangrentas, e arrisca mesmo ao nem colocar no ecrã as forças alemãs. Decisão que se compreende, porque não precisamos de ver algo para o temer.
    Como acima dissemos, não é o melhor filme de Christopher Nolan, mas é parcialmente o filme menos Nolan de Nolan. Ou seja: tem pouco diálogo e muito pouca exposição (problemas apontados pelos mais picuinhas a Inception e Interstellar), e talvez por isso os críticos estejam a morrer de amores por ele. E não faz sentido compará-lo com grandes nomes da guerra como Saving Private Ryan, The Thin Red Line, Apocalpyse Now ou Platoon. Dunkirk é uma espécie diferente.

    Na ilustração daquilo que um soldado pode fazer pelo seu país, e o que o seu país (leia-se, os heróis invisíveis do dia-a-dia para quem ajudar é um dever e um instinto) pode fazer pelos seus, torna-se difícil respirar. Fortemente influenciado por The Wages of Fear e pelo batimento cardíaco de projectos recentes como Mad Max: Fury Road ou Gravity, Nolan - o homem anti-CGI capaz de rebentar orçamentos em efeitos práticos e recriações fiéis - volta a brilhar na execução, apoiado na Fotografia de Hoyte van Hoytema. Quando Christopher Nolan pensa em algo e não sabe como fazer essa ideia passar do guião para o ecrã, é aí que sabe estar perante um desafio que merece ser explorado, e mais tarde ultrapassado.
    De resto, e antes de fazermos um balanço final, uma palavra para o casting. Todo o elenco corresponde (bem-vindo ao mundo dos actores, Harry Styles) e foi inteligente a utilização de "desconhecidos" no segmento em terra. Fionn Whitehead e Mark Rylance comunicam o que se pede deles, mas é Tom Hardy que merece os principais elogios. Condenado a viver atrás de uma máscara, o actor britânico consegue ser, no cockpit e tendo quase só os olhos para actuar, o principal veículo de emoções do filme.

    No seu todo, deve-se elogiar a experiência que Dunkirk é para o espectador (será incomparável vê-lo, depois, na televisão), brilhantemente editado e apoiado numa sonoridade do outro mundo, que poderá ser dolorosa ou incómoda para alguns espectadores. Podemos questionar algumas opções: a utilidade da morte de uma personagem no barco; o facto do penúltimo plano não ser o plano de fecho do filme; e o clímax que, se for entendido como a chegada dos barcos, sabe a pouco, mas se for a intersecção dos 3 segmentos tem de facto impacto. Mas compreendemos as escolhas que têm sido mais contestadas. Desde os pouco frequentes diálogos ao escasso desenvolvimento de personagens. Porque Dunkirk não é sobre personagens, é sobre Dunkirk em si. E na guerra não há nomes, não há conversas de circunstâncias; há um batimento cardíaco acelerado que só serena quando por fim está em casa.
    O Cinema ganhou momentos épicos - o encadeamento de salvamentos, explosivo e graficamente impressionante naquele limite entre água e fogo, ou o navio atingido pelo submarino e subsequente afogamento até surgir a luz - e Dunkirk, como quase todos os filmes de Nolan, merece ser visto uma segunda vez. Não pela sua narrativa não-linear (mais fácil de acompanhar do que noutros casos) mas porque uma 2.ª experiência garantiria um maior distanciamento e, por isso, uma maior capacidade para apreciar certos traços (a profunda beleza dos planos, ou a brutal edição e mixagem de som).
   
    Em Dunkirk não se celebra a guerra, celebra-se a coragem dos homens comuns do passado. Capaz de colocar no ecrã o medo puro, a aflição e a claustrofobia, mostra-nos que, na guerra, sobreviver é suficiente. E é o que chega para termos, como é Dunkirk, uma história para contar.

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