23 de janeiro de 2017

Crítica: Moonlight

A CAMINHO DOS ÓSCARES 2017
Realizador: Barry Jenkins
Argumento: Barry Jenkins
Elenco: Trevante Rhodes, Naomie Harris, André Holland, Ashton Sanders, Janelle Monáe, Alex Hibbert, Mahershala Ali
Classificação IMDb: 7.7 | Metascore: 99 | RottenTomatoes: 98%
Classificação Barba Por Fazer: 85


    Em 2014, Richard Linklater mostrou ao mundo o seu projecto de 12 anos (Boyhood), celebrado pela crítica - 100 no Metascore e 98% nos Rotten Tomatoes - ao conseguir de uma forma inovadora, paciente e experimental oferecer-nos um ensaio sobre o que é crescer e amadurecer, deixando o tempo passar não só pelas personagens mas também pelos actores. Um dos melhores filmes deste ano, 'Moonlight', soube ousar também na construção narrativa, alegadamente inspirado pelo taiwanês Zui hao de shi guang - está fragmentado em 3 fases (criança, adolescente e adulto) embora o seu foco esteja colocado sobretudo num processo de auto-descoberta e aceitação ou paz interior.
    Barry Jenkins, apaixonado pelo manuscrito extremamente pessoal de Tarell Alvin McCraney, In Moonlight Black Boys Look Blue, acrescentou ao guião também um pouco do seu passado e apostou numa estrutura arriscada. Moonlight divide-se em 3 capítulos: i. Little, ii. Chiron e iii. Black.
    Considerado nos Globos de Ouro o Melhor Filme Dramático, é bem capaz de ser o filme que este ano melhor trabalha as suas personagens - há conflito, dilemas morais, personagens que influenciam o trajecto de outras e, sobretudo, há evolução. Uma evolução que dura 1 hora e 51 minutos mas que podia perfeitamente ter mais meia hora (não questionamos o timing do fim, que faz sentido, e o último plano é perfeito, mas parece faltar algo à terceira parte, na qual o filme fecha o que tem a fechar e fá-lo como grande filme que é, pedindo ainda assim algo que o pudesse elevar a super-obra-prima indiscutível e intemporal).
    Uma das melhores coisas de Moonlight é o seu carácter genuíno. Acompanhar o trajecto de um jovem afroamericano homossexual poderia tentar Jenkins e a sua equipa a fazer o filme carregar uma bandeira de black movie ou gay movie. Mas não. E o mérito é de Barry Jenkins, como contador da história, e de todo o elenco, com o foco bem definido - a humanidade e universalidade de toda a vida do protagonista.
    Poético num filme que lhe é tão pessoal, Barry Jenkins apoia-se numa excelente banda sonora de Nicholas Britell ("The Middle of the World" é simplesmente incrível, embora o equilíbrio do filme esteja também na boa articulação e tempo que dá aos silêncios) e no meritório trabalho do Director de Fotografia, James Laxton, e conseguiu verdadeiros milagres de produção - Naomie Harris, única actriz que entra nas três partes, filmou todas as suas cenas em apenas 3 dias, e as filmagens totais duraram 25 dias, sem que os 3 actores (Alex Hibbert, Ashton Sanders e Trevante Rhodes) que interpretam a personagem principal se conhecessem e trocassem impressões.
    Em i. Little, é o pequeno Alex Hibbert que nos introduz o protagonista, embora seja Juan (Mahershala Ali) o grande destaque, um mentor que marca o filme da mesma forma que marca a vida e o futuro de Chiron; vítima de bullying constante, Chiron encontra num traficante de cocaína uma figura paternal e protectora, com Ali, mais conhecido pelo seu trabalho em House of Cards, a ter um dos melhores papéis do ano - o seu conflito é claro (quer o melhor para Chiron, mas é ele quem alimenta o vício da mãe deste, um papel igualmente brilhante de Naomie Harris), e o carisma que irradia é quase tão significativo quanto o momento em que Mahershala Ali consegue expressar vergonha no rosto.
    Depois, chega ii. Chiron, o momento de Ashton Sanders agarrar no volante e assumir-se como um dos actores-revelação do ano. Na adolescência, destaca-se a relação de Chiron com Kevin, e enquanto Sanders consegue mostrar-se como um jovem num sofrimento e solidão que o transformam numa panela de pressão, destaca-se a quebra da quarta parede de Naomie Harris e a explosão final que fecha o capítulo e lança a parte final.
    Por fim, iii. Black representa um assinalável salto temporal (as transições em Moonlight estão brilhantes, e o espectador não duvida em algum momento que aqueles 3 actores sejam a mesma pessoa) com Trevante Rhodes - extraordinário como um actor com tanta masculinidade consegue na sua vulnerabilidade e contenção ligar-nos logo ao seu passado - a fechar o arco narrativo na forma como interage com Juan, Kevin e com a sua mãe. Chiron torna-se o que Juan era, produto do contexto em que cresceu, e com Kevin e a sua mãe completa uma lógica de perdão e aceitação, numa fase em que parece que quase ele próprio já se esqueceu ou escondeu quem foi e o que já sentiu.
 
    Com uma beleza rara, um trabalho de câmara e um elenco extraordinários, Moonlight consegue colocar no grande ecrã o tempo que demoramos a descobrir quem somos, e a aceitar e abraçar isso mesmo. E é essa capacidade que faz do filme de Barry Jenkins uma peça universal. Com suavidade e sensibilidade, fala sobre as pessoas e as decisões que nos fazem ser quem somos; podia facilmente ter mais meia hora distribuída ao longo do filme, o que só comprova a qualidade do trabalho de Mahershala Ali, Trevante Rhodes, Ashton Sanders ou Naomie Harris e o invisível talento do director de casting que os juntou. A Academia anuncia amanhã (24 de Janeiro) os seus nomeados, e Moonlight deve acumular umas 8 nomeações.

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